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ZAMBIA (Portugese)
ZAMBIA:
Projecto de Segurança Alimentar em Livingstone - Acção de Investigação em Gestão de Recursos Naturais - Métodos para Obtenção de Mudança a Curto Prazo
ANTECEDENTES
SA Zâmbia tem vindo a sofrer, desde a estação agrícola de 1991/92, a maior seca verificada desde a independência. Na metade Sul do País, a qual deveria receber normalmente 600 mm de precipitação anual, as colheitas agrícolas e a produção de gado têm sido severamente afectadas a ponto de se ter tornado difícil para os fazendeiros atingir os níveis de subsistência. Ano após ano têm vindo a verificar-se acções de assistência alimentar as quais representam elevados custos. Tornou-se então evidente a necessidade de iniciar uma abordagem da situação tendo em conta uma visão mais alargada e a longo prazo.
Em Novembro de 1994, a CARE iniciou um projecto de segurança alimentar para diminuir os efeitos da seca nos distritos de Kalomo e Livingstone, Província do Sul. O objectivo final do Projecto de Segurança Alimentar em Livingstone (PSAL) é o de reduzir a vulnerabilidade à seca através de criação de segurança alimentar a nível familiar salientando as causas de vulnerabilidade e de insegurança alimentar. O projecto cobre 72 000 habitantes rurais de uma população rural total de 205 000. As acções de pesquisa descritas neste documento fazem parte dum conjunto mais alargado de actividades do PSAL.
Em consequência das sucessivas secas, a população da área em questão caracteriza-se pelo facto de se encontrar exaurida de bens físicos. Os esforços da CARE têm incidido no melhoramento da capacidade das comunidades para reposição sustentável dos bens básicos, o qual tem sido atingido através do desenvolvimento de organizações comunitárias viáveis. Várias intervenções, tais como promoção de sistemas sustentáveis de agricultura, melhoramento de sistemas de captação de água e práticas de gestão de recursos naturais, têm sido implementadas através destas organizações comunitárias.
AVALIAÇõES RURAIS PARTICIPATIVAS
Numa série de avaliações rurais participativas levada a cabo pela CARE em 1996, os fazendeiros continuamente referiram o facto da precipitação estar em diminuição progressiva com os consequentes efeitos para o ambiente e sistemas de subsistência. Os agricultores referiram, em particular, a seca dos "dambos" ("áreas chave em termos de recursos", áreas localizadas em depressões contendo solos aluviais mais ricos e com melhor teor de humidade que os terrenos circundantes) e das planícies, o que leva a uma emigração das populações devido à impossibilidade de praticar certas actividades rentáveis tais como a pesca, e à existência de tensões sociais criadas pela escassez de recursos. Foram também referidas dificuldades em encontrar água para consumo humano e do gado, e a deterioração das produções agrícolas devido à seca. As condições de seca causadas pelo declínio da precipitação foi registada pelos fazendeiros em mapas de historiais de recursos e confirmadas posteriormente através de mapas topográficos e fotografia aérea. A seca dos "dambos" e das planícies foi acelerada por certas actividades humanas tais como degradação dos recursos florestais nas correspondentes bacias hidrográficas.
Foi concebido um Projecto de Acção Investigadora com base nos resultados das avaliações rurais participativas, tendo em conta que, devido ao ambiente em constante modificação, não havia solução imediata para os problemas anteriormente citados. Havia antes, uma necessidade imperativa de desenvolver sistemas de subsistência através de um processo adaptativo. Para tal ter em conta, a CARE formulou um Projecto de Acção Investigadora em duas áreas piloto, Delevu (população: 300) e Katapazi (população: 1500). Estas áreas foram deliberadamente seleccionadas devido às suas contrastantes condições e assim ser possível estudar como o ambiente, economia e factores sócio-culturais são importantes em programas de gestão de recursos naturais.
AVALIAÇõES DAS CONDIÇõES DE BASE
Como um primeiro passo no Projecto de Acção Investigadora, foram efectuadas avaliações das condições de base em bacias hidrográficas em Delevu e Katapazi, em Julho e Agosto de 1997, por membros da comunidade e pessoal do Departamento de Florestas e da CARE. O objectivo das avaliações era o de permitir à CARE e às comunidades identificar problemas relacionados com a gestão de recursos naturais e encontrar meios para os salientar. A equipa de avaliações foi dividida em grupos, tendo-se cada um destes concentrado numa zona particular dentro da bacia hidrográfica, em termos de ecologia e geografia, tais como "dambo", floresta ou terra alta. Os recursos de cada zona dentro da bacia foram mapeados e as tendências registadas. Foi dado especial ênfase à colheita de dados quantitativos. Deste modo, problemas importantes tais como deflorestação nas terras altas, seca de "dambos", assoreamento de nascentes a jusante e as suas causas foram salientadas, e possíveis intervenções para conservação dos solos e recursos hídricos, foram discutidos. Os factores sócio-culturais, económicos, institucionais, e ambientais foram tidos em conta e avaliados quanto à sua viabilidade. Posteriormente a informação sumária foi traduzida em Tonga (a língua local) e posta em diagramas. Estes diagramas formaram a base para negociações entre os membros das comunidades e entre a comunidade e a CARE. As negociações concentraram-se nas acções que melhor poderiam ajudar a resolver os problemas identificados. Planos de acção foram então acordados, designando quem, o quê, onde e quando se realizariam as diversas actividades.
Após as avaliações terem sido efectuadas, as equipas apresentaram sumários dos resultados e iniciaram negociações sobre as intervenções viáveis identificadas. Estes resultados deram ênfase aos elos existentes entre os recursos. Deste modo, as negociações foram conduzidas com base em programas e não em actividades. Por exemplo em Delevu, onde foi proposta a construção de uma represa para abastecimento de água a gado, foi salientada a importância da gestão dos recursos florestais na bacia contribuinte, para controlar assoreamento e promover recarga de aquíferos, como sendo vital para o tempo de vida da obra. Atenção particular foi dada à necessidade de arranjos institucionais para cada intervenção. Como resultado, grupos de interesse comum foram formados. Estes grupos foram auto-seleccionados e formados por facilitadores locais.
Posteriormente, uma linha de investigação detalhada foi desenvolvida especificando a metodologia a utilizar para reduzir degradação da terra induzida por actividades humanas e em última instância contribuir para o aumento do nível do lençol freático em "dambos" e planícies. Antecipa-se que a subida do lençol freático contribúa para os sistemas de subsistência baseados em produção agrícola e de gado, e por outro lado aumente a água disponível em poços e furos durante o decorrer de todo o ano.
ACTIVIDADES DE ACÇÃO DE INVESTIGAÇÃO
Em Kapatazi, a comunidade identificou os seguintes problemas críticos como sendo causadores da erosão de barrancos nas terras altas: deflorestação, excesso de pastagem e métodos de cultivo inapropriados, assoreamento de nascentes e gestão inadequada da drenagem em "dambos". Para mitigar estes problemas, a CARE trainou facilitadores locais em gestão de bacias hidrográficas, em monitorização de precipitação utilizando pluviómetros, monitorização da erosão do solo utilizando estacas, e monitorização da cobertura vegetal basal e diversidade de espécies. Os facilitadores locais levaram a cabo reuniões para conscientização dos fazendeiros sobre as consequências da desflorestação e as implicações de monitorização da informação. Outras medidas implementadas incluíram rotação de pastagens, formação de cristas de terra, lavra seguindo as curvas de nível, construção de gabiões, protecção de nascentes, e testes de campo de bombas de água a pedal. Utilização de gabiões e protecção de nascentes foram as intervenções que provaram ter maior impacto. Encontram-se em elaboração planos para réplica destas intervenções.
Em Delevu, os problemas identificados incluíram fraca protecção florestal, fraco teor de humidade nos solos, fraca gestão da fertilidade dos campos de cultivo, e escassez de água para o gado. A comunidade preparou leis provisórias para assegurar protecção da floresta. Foi também realizada lavra seguindo as curvas de nível para melhorar a conservação do solo e dos recursos hídricos. A CARE treinou facilitadores locais, o Chefe Sekute (líder tradicional) e um dos seus principais homens, em gestão de bacias hidrográficas, os quais se encontram agora em processo de conscientizar o resto da região (em complemento a Delevu) relativamente a estes assuntos. Os facilitadores locais têm monitorado a precipitação e a erosão utilizando respectivamente, pluviómetros e estacas medidoras de erosão. Encontra-se em construção uma barragem para amenizar os problemas sentidos relativamente à falta de água para o gado. Outras intervenções de gestão de recursos naturais serão implementadas simultâneamente à construção da obra.
LIÇÕES APRENDIDAS
O estabelecimento inicial de medidas de gestão de recursos naturais é um processo moroso. No entanto, se os benefícios forem facilmente reconhecidos, as tecnologias apropriadas têm melhor chance de ser rapidamente disseminadas. Por esta razão, faz sentido iniciar os projectos em áreas onde os benefícios sejam mais rapidamente visíveis, tais como em terrenos inférteis e represas assoreadas. A utilização de instrumentos simples de monitorização, tais como estacas para medir erosão, ajuda a comunidade a entender os benefícios potenciais da gestão dos recursos naturais, os quais levam normalmente um longo tempo para ser apercebidos. O processo inicial de formação de grupos de interesses comuns é um processo crítico. Os grupos têm de ser reconhecidos como um benefício para que os seus membros se decidam a dedicar-lhes tempo e trabalho. As relações entre estes grupos e outras instituições comunitárias, especialmente as tradicionais, devem ser bem clarificadas. Se tal não for efectuado, haverá desentendimentos que levarão a atrazos, confusão e conflito.
Os fazendeiros respondem bem à acção. Por esta razão a formação deve ser o mais prática possível, concentrando-se em demonstrações (e não em lições teóricas) a implementar no terreno. Formação através de visitas a outros fazendeiros em condicões semelhantes, pode ser um método muito efectivo. A moral dos fazendeiros participantes é estimulada após visitas a outros projectos ou locais, onde lhes é possível constatar os benefícios das intervenções de gestão de recursos naturais, as quais podem por eles ser replicadas.
A população jovem é muitas vezes a mais inovadora e a menos aversa à tomada de riscos. A participação de elementos jovens pode contribuir para a implementação de novas ideias e actividades, devendo por tal ser encorajada. Por este motivo, durante o primeiro ano, deve ser tida em consideração a possibilidade de estabelecimento de um limite superior de idade para a entrada nos grupos.
Sempre que seja possível, deve ser dada primazia à utilização de materiais locais, como seja o caso do uso de mato para a construção de gabiões. A disponibilidade deste materiais facilita a réplica e a disseminação das tecnologias uma vez que estas sejam adaptadas.
Os fazendeiros são racionais e inovadores. Eles adoptam e, talvez o mais importante, adaptam as tecnologias que apresentam benefícios mais consideráveis. A adaptação de novas tecnologias por parte dos fazendeiros é muito importante. Adaptações que tm em conta diferenças ambientais, ajudam a promover credibilidade das novas tecnologias, contribuindo assim para uma aceitação mais rápida e a implementação por fazendeiros vizinhos.
DESAFIOS CHAVE
Melhoramento das relações entre os líderes das organizações comunitárias e os líderes tradicionais. Foi desenvolvido um módulo de formação com o objectivo de clarificar os papéis, responsabilidades, e relações entre os líderes tradicionais e os dos grupos comunitários. Embora este problema tenha sido ultrapassado em algumas zonas, continua a existir no resto das áreas cobertas pelo projecto, e como tal levará o seu tempo a ser vencido. A resolução de conflitos deste tipo é em grande parte dependente da personalidade dos líderes e da sua boa boa vontade, pelo que as diversas tentativas de solução estão sujeitas a obter resultados variados.
Proporcionar incentivos aos líderes das organizações comunitárias. Os líderes dedicam uma parte considerável do seu tempo à organização de actividades dos grupos, o qual não é de momento remunerado. Se esta situação persistir, a participação dos líderes poderá diminuir, reduzindo assim a viabilidade destas instituições a longo prazo. Tal facto levanta a questão de como poderão estas organizações comunitárias gerar fundos próprios ou se estes grupos deverão ser apenas de curta duração.
Alargamento do projecto. O projecto tem conseguido obter uma aceitação relativamente rápida das tecnologias de gestão de recursos naturais com alguns benefícios imediatos. O desafio futuro reside no alargamento do número de participantes tanto dentro como fora da área do projecto.
Gabião Na Nascente B Em Kalulwe, Libondas


Detalhes Dos Pontos "A" e "B"


A - Estas fotografias mostram em primeiro plano um gabião feito de mato. á direita do gabião, sedimentos foram bloqueados e assim impedidos de atingir a nascente - que se encontra à esquerda. O campo de pimentão-doce, do qual foram originados os sedimentos, é visível na parte posterior da fotografia. É ainda possível ver as duas linhas de postes de madeira com mato entre eles entrelaçado.


B - Estas fotografias mostram a linha de pedras que foi construída ao longo da curva de nível em campos de pimentão-doce. Alinha de pedras foi construída após o gabião quando se tornou evidente para a comunidade a quantidade de solo que estava a ser arrastada do campo de cultivo.
PARA MAIS INFORMAÇÃO CONTACTAR:
CARE Zambia
P.O. Box 36238
Lusaka, Zambia
Email: care-zambia@carezam.org
Web: CARE Zambia
O caso de estudo apresentado foi baseado no relatório preparado por David Adriance, Robbie Mwinga e Myles Murray da CARE Zambia.
"Liões Aprendidas em Água, Saneamento e Saúde Ambiental" é uma série de curtos casos de estudo desenhada para identificar as melhores práticas em água, saneamento e saúde ambiental através de lições aprendidas em projectos da CARE e outros. A série é editada por Jon Macy e Peter Lochery.
16 de Novembro de 1998
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